sábado, 25 de abril de 2015

EM DEFESA DO RIO PARNAÍBA. CONTRA A BARRAGEM UHE CANTO DO RIO

EM DEFESA DO RIO PARNAÍBA. CONTRA A BARRAGEM UHE CANTO DO RIO

Rio Parnaíba 

Pe. Alex Lafuente

Todos vocês souberam do assalto ao Banco do Brasil de Tasso Fragoso nestes dias atrás. Certamente, se as autoridades competentes e policiais tivessem sabido com antecedência de dito assalto, teriam tomado medidas oportunas para que o mesmo não acontecesse. Pois bem, eu estou avisando, outro ASSALTO está para acontecer, e de consequências bem mais graves e irreversíveis, pois um banco dá pra reconstruir, o rio Parnaíba não. Trata-se do projeto de implantação da usina hidroelétrica Canto do Rio que, tenham certeza, vai acabar com o rio Parnaíba e com boa parte do Bioma da região, sem possibilidade de volta atrás, se nós não nos organizarmos pra evitar esta catástrofe.

A empresa responsável pelo projeto, a MinasPCH, fez um folheto explicando, sucintamente, a implantação de dita usina e anunciando as audiências públicas  que serão realizadas nos três municípios atingidos:

ü Santa Filomena – PI, dia 12/05/2015 às 18h. no CISEC;
ü Alto Parnaíba – MA, dia 13/05/2015 às 18h. no CREAP;
ü Tasso Fragoso – MA, dia 14/05/2015 às 18h. no Ginásio Municipal de Esportes.
  
PARTICIPEM!!! Tanto na audiência como nas intervenções, pois, como anunciado no folheto, “audiência pública é um exercício de cidadania”. O transporte será gratuito para os proprietários de terra e povoados da área de influência direta do empreendimento. No entanto, é necessária a inscrição com antecedência pelo telefone: 0800 887 0879.

Em dito folheto (muito “bonitinho” e atraente, por conta) estão falando de uma serie de benefícios que dita usina vai trazer pra nós. E não estão dizendo nem uma palavra sequer dos PREJUIZOS, imensos, que essa barragem iria trazer, se for construída, para o bioma da região, para as pessoas que moram aqui e para o próprio rio Parnaíba. E, por que não dizer, para o próprio Brasil (eles que se apresentam como uma empresa 100% brasileira), pois estarão contribuindo para mais um estágio da destruição de um dos Biomas mais ameaçados neste momento, que é o Cerrado.

Pe. Alex - Pau Brasil 
Bom, pra começar, se apresentam como uma empresa que respeita o meio ambiente.  Porém, ao inundar quase 80 km quadrados de chão para implantar dita usina, vão destruir uma enorme quantidade de plantas, árvores e animais, algumas de cujas espécies estão em vias de extinção. Entre elas, só como exemplo, um pau Brasil que fica a 300 metros do rio, bem perto da minha casa, na beira do Brejo da Onça, e que seguramente já estava lá quando Álvares Cabral veio na nossa terra, ao lado da qual fica outra de menor porte, mas, igualmente grande. Pau Brasil que pelo que tenho entendido (senhores do IBAMA e do Ministério do Meio Ambiente, atenção) é uma espécie altamente protegida porque é altamente ameaçada de extinção, e é um dos contados (com os dedos de uma mão) exemplares que fica na região e que está quase extinta no Brasil. Somente esse exemplar milenário de pau Brasil deveria ser argumento suficiente para parar essa usina, se o IBAMA levar a sério os seus argumentos de preservação. Essa árvore como outras da região, deveria ser um “Museu Vivo” para a visitação e aprendizagem das nossas crianças e jovens, mostrando para eles o quê quer dizer preservação. E não ir parar em algum museu da região (mortas, matadas) como é a proposta dos senhores do SOMA (e não estou inventando nada, está escrito nos estudos de impacto meio ambiental que eles fizeram). Pra não falar nas outras espécies de árvores protegidas que a usina vai engolir: pau d'olho - podoi (aos montes, na beira desse rio. Só ao redor da minha casa contei mais de 20), Pau d’arco, Sucupira, Jatobá, Mucuíba (medicinal, assim como tantos outros), Pequi (mais de 20, de grande porte, tem ao redor da minha casa, em menos de 100 metros), Gonçalo-alves (também ameaçado de extinção), Mirindiba, muito abundante na beira do rio (fonte de alimento para todas as espécies, aves, mamíferos e os próprios peixes), Canjarana, Bacaba (tão prezada pelos tucanos e pelos poucos “ferreiras” que ainda ficam na região), só pra citar alguns. Pra não dizer dos imensos buritizais que a usina vai matar.

E é inútil, senhores da MinasPCH, que venham me falar em “reposição e enriquecimento florestal”. Mesmo que haja o recolhimento das sementes das árvores e plantas que serão atingidas e o consequente plantio e reposição em outras áreas adjacentes (aonde? Na chapada?).  Pergunto, quantas centenas de anos serão necessários para que essas árvores atinjam o porte das que eles pretendem destruir.

Falam também em “resgate da fauna terrestre”. Pura ilusão. Como é que irão resgatar tantos e tantos animais que, no melhor dos casos, saibam nadar? Seria melhor vocês falarem logo de “afogamento e destruição massiva” da fauna da região. Vocês estarão contribuindo para mais um estágio na destruição de um dos Biomas mais ameaçados atualmente no Brasil, que é o CERRADO, mais ameaçado ainda do que a floresta amazônica ou do pouco que resta da mata Atlântica.

E das aves, algumas das quais também em vias de extinção, e cujo ciclo de vida e reprodutivo depende das margens deste rio? A arara preta, espécie ameaçada de extinção em nível nacional e mundial, e que os pesquisadores afirmam “não ser abundante na região”. Tenho avistado grupos de 25-30 destas araras comendo piaçaba na chapada depois das queimadas. E só por cima da minha casa passam várias todo dia. Ou o Jacu, também ameaçado de extinção em nível nacional e mundial, igualmente abundante nas beiradas do rio Parnaíba.

Pra não falar nos peixes, fonte de renda não só pra as pessoas atingidas diretamente, mas pra toda a região. Mesmo que não fosse suficiente o veneno que botam todos os anos no rio as grandes fazendas da região (lembrem-se das centenas de peixes de grande porte que desceram no ano passado boiando na água. E que não venham me dizer - outro conto pra boi dormir - que foi por causa da lama do Uruçui Vermelho, pois a vida toda esse rio botou lama no Parnaíba, mas só começaram descer peixes mortos depois da implantação das grandes fazendas e dos agrotóxicos por elas usados). Pretendem, simplesmente, construir um muro de 1.100 de comprimento por 35 de altura, que vai impedir, definitivamente, os peixes subirem e descerem o rio durante a piracema, pois no projeto não é contemplado nem elevador de peixes e nem rampa de subida, nem esclusas, escadas ou canais secundários para eles subirem para desovar. Os peixes que nós comeremos no futuro... só comprando no supermercado, vindos de açudes ou de outras regiões.  Porque, não se iludam, se já é difícil o peixe, de maneira especial certas espécies (quem já ouviu falar ultimamente em piratinga, sardinhão e outros peixes abundantes no passado?), depois da usina pronta muitas outras espécies irão acabar. Todos sabemos que certas espécies precisam subir e descer o rio para desovar e se construírem um muro que impeça isso... adeus peixes... e pescadores. (Então, irão repovoar o rio com alevinos das espécies ameaçadas? Alevinos de piratinga, de branquinho, de sardinhão? De onde, e como eles vão fazer isso? Ou então recolher os peixes durante a piracema e colocá-los por cima da repressa? Todos os anos, para sempre, iriam fazer a mesma operação?)

Agora, o mais interessante é quando a MinasPCH fala em “remanejamento, reassentamento e indenização da população afetada”. Isso já é piada. Aonde vão reassentar, me digam, todo esse povo que mora e planta nas vazantes do rio Parnaíba e que vive disso? Na chapada de areia, para plantar lá o tomate, o pimentão e a melancia? Ou talvez... na serra, tomada toda pelas grandes empresas do agronegócio? Eu vou dizer a vocês onde irão “reassentar” todo esse povo (mesmo que eles já saibam disso), vão reassentar...nas pontas de rua dos três municípios atingidos, porque com o dinheiro que iremos receber como indenização não vai dar para ir mais longe. E morando em casa de parentes, porque com a indenização não vai dar pra comprar nem um lote, imaginem pra construir uma casa.

Senhores atingidos, esta é pra vocês. Não sonhem que irão receber sacos de dinheiro e vão ficar ricos da noite pra o dia, porque vai acontecer precisamente o contrário, vão perder o pouco que tem, sem possibilidade de recuperá-lo. Ao receber a indenização, estipulada por eles, se não concordarem, poderão entrar na justiça... e talvez, d’aqui a 20 ou 30 anos os seus netos receberão alguma coisa... improvavelmente. Todos sabem como funciona a justiça nesses casos. Perguntem aos atingidos pelo Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba o quanto receberam até agora. E já se passou mais de uma década desde a sua criação.

Isso em se tratando de bens materiais. E os bens sentimentais e afetivos por morar num lugar durante gerações? Como se pode calcular e indenizar isso? Os cemitérios onde estão sepultados os entes queridos, as lembranças de pais e avôs ligadas ao lugar? Isso não tem dinheiro que pague.

Falam igualmente de benefícios econômicos para o município. Pura falácia. Quem arrecada os impostos não é o município produtor da energia (no caso, Tasso Fragoso, que é onde fica a usina), mas, os receptores de dita energia, no caso, seguramente alguma população do centro ou do sul do país, que é onde têm fábricas, indústrias e cidades com 440 mil habitantes, como diz o folheto, que com toda certeza será para onde migrarão os 44 MW gerados pela usina. Porque aqui não tem nem fábricas, nem indústrias e nem população (menos de 1 habitante por km2) e portanto nem votos para os políticos se elegerem (Cadê as promessas dos políticos, feitas a cada eleição, de “luz para todos” na nossa região?). E nós atingidos, além de não recebermos benefício algum, continuaremos a nós iluminar com lamparina porque o fornecimento de dita energia não depende deles, mas, do Governo, que não está nem ai conosco. Na questão da arrecadação dos impostos sobre a energia estou apenas repetindo a afirmação veiculada no programa “Fantástico” da Rede Globo, emitido no dia 12 de abril, e que convido vocês a assistirem. Podem baixar no site do Fantástico (click aqui) pois é muito esclarecedor para entender o que estão fazendo na questão das barragens na região amazônica e o que pretendem fazer aqui.

Quanto aos “royalties”, só se for no Tasso que, como falava antes, é aonde vai ficar a usina, ou em Santa Filomena, porque para Alto Parnaíba vai sobrar apenas uma miséria...e os prejuízos que a dita usina vai gerar.

Falam também de geração de emprego e aumento da renda. Mais de 300 empregos (dizem) no pico da construção da usina. Pão para hoje e fome para amanha. E, em todo caso, benefícios pra Tasso Fragoso, que é a onde ficará o canteiro das obras. Pra não falar no “efeito-chamada” que a construção de dita usina iria trazer em forma de pessoal vindo de outros lugares, com o conseguinte aumento da insegurança pública, pois posso imaginar que parte desse povo vão vir não pra botar as mãos na massa do cimento, mas noutro tipo de “massa”.

Quanto ao “aumento do conhecimento científico”, que é uma frase de efeito, muito bonita, me pergunto (se é que estão se referindo a isso) a quem vão aproveitar, ou quem vai ler, os 1O tomos de “estudos” do impacto meio ambiental (EIA-RIMA) que a empresa contratada por eles (SOMA), fez nos poucos meses que passaram por aqui. Estudo muito bonito, certamente, muito bem documentado, feito sem dúvida para que as gerações futuras possam consultar em alguma biblioteca da região, pra saber no futuro, como era por aqui a natureza que eles pretendem destruir hoje.

Árvores petrificadas 
Sítios arqueológicos “inexistentes” na nossa região?  Bem ao lado da minha casa tem uma autêntica jazida de árvores petrificadas e de fósseis marinhos.  Este sitio arqueológico que não foi cadastrado pelo Soma e, portanto nem estudado pela ciência, será engolido pela água. Além de outros possíveis que não tenham sido identificados e cadastrados no pouco tempo que eles passaram por aqui. Deste aqui, eu mandei alguns exemplares de fósseis ao Museu Paleontológico de São Luis, pois eles afirmavam que no  Maranhão  não existiam tais fósseis marinhos.

Alguns anos atrás recebi um folheto de uma ONG espanhola preocupada com a destruição das matas nos países tropicais, especialmente na África, mas que serve igualmente pra nós. Eles tinham “inventado” um mini-fogão feito com tetra pak (caixinhas de leite) que refletia os raios do sol, de tal jeito que era possível ferver água e cozinhar alimentos nele. Pois bem, imaginem um grande “fogão” de 84 km quadrados, que não vai usar tetra pak, mas um espelho de água desse tamanho. O quê é que não vai “cozinhar”? Essa repressa, caso seja feita, vai mudar definitiva e irreversivelmente o clima da região. E quem vai sofrer com essa mudança seremos nós e as vindouras gerações. A natureza, quando agredida, sempre costuma revidar, ou com grandes enchentes ou com secas pertinazes.

Igualmente, a destruição das matas das beiradas dos afluentes que despejam a sua água no rio vai contribuir para o assoreamento da região e o conseguinte aumento do despejo de areia e barro no rio. Todos nós sabemos o que está acontecendo nesse sentido e como o nível do rio vem baixando, tornando-se mais raso a cada dia, podendo ser atravessado a pé em muitos lugares.

Pergunto-me igualmente se o IBAMA vai permitir a construção de uma represa cujo reservatório (que vai chegar até na Prata, a 4 Km de Alto Parnaíba) vai ficar  apenas 50 Km do Parque Nacional das Nascentes e a 200 das próprias Nascentes. E depois criam problemas pela construção de uma ponte na cidade, no rio Parnaíba.

Os ambientalistas estão cada vez mais preocupados com o chamado “efeito estufa” e com a emissão dos gases que o provocam. A MinasPCH se apresenta como uma empresa que defende o meio ambiente, pioneira no uso de energias que eles chamam de “renováveis” (me pergunto se algum dia elas deixem de mover as turbinas...por falta de água), mas também pioneira no uso da energia eólica. Pois bem, a MinasPCH contribuiria, bem mais, evitando a destruição da camada de ozônio preservando esses 84 Km quadrados de verde que eles pretendem destruir, ao invés de instalar quantos quer que sejam moinhos de vento para gerar essa energia “limpa” (e estou me referindo, mais uma vez, às informações veiculadas pelo Fantástico. Quero pensar que os jornalistas responsáveis por essa matéria e por tanto a Rede Globo, tenham comprovado suficientemente essas informações antes de emiti-las).

Por último, quero lembrar que a barragem não poderá ser construída se os prefeitos dos municípios atingidos não derem a sua permissão, assinando o protocolo de implantação. Cabe então a nós exigirmos dos nossos governantes que isso não aconteça, pois eles são os nossos representantes, a nossa voz e é para isso que foram eleitos. O prefeito Itamar Vieira me assegurou que não vai assinar nada, ao menos enquanto não conversar com o povo atingido (que somos todos nós e não só os que serão inundados). E eu quero, publicamente, perguntar ao senhor prefeito, valendo igualmente a pergunta para os prefeitos de Santa Filomena e Tasso fragoso: e se o povo se manifestar aberta e massivamente contra essa barragem? Será que, mesmo assim, eles irão assinar? Quero lembrar a eles que uma decisão assim não só vai afetar a esta geração, mas também às gerações futuras, “pelos séculos dos séculos”.  Porque é isso que vai acontecer se eles assinarem. Não vai ter volta atrás. E o povo (tenham certeza) não vai esquecer-se disto nas próximas eleições. Além do que estes prefeitos se assinarem, irão passar para a história dos municípios não como aqueles que trouxeram progresso e desenvolvimento aos mesmos, mas, como aqueles que permitiram que acontecesse o “começo do fim” do rio Parnaíba.

Mais uma vez, conclamo a toda população: PARTICIPEM E MANIFESTEM-SE!  Contra (estou seguro de que é a imensa maioria) ou a favor (pode ser haja pessoas que também o sejam). É um direito nosso, mas, também um dever.

Uma maneira efetiva de participar é nos organizarmos para lutar contra a implantação dessa usina. E o modo é fazendo parte da associação já criada em Tasso Fragoso, a “Associação dos Atingidos Pela Barragem Canto do Rio”. AFILIEM-SE!!! Vamos lutar em conjunto, unidos e organizados, que é como teremos mais força para conseguir barrar àqueles que querem sobrepor um pretenso “progresso” e bem-estar futuro à defesa do meio ambiente e do próprio Rio Parnaíba.


“No século XXI não percebemos que no casamento entre tradição e tecnologia, o respeito ao passado é o melhor presente para o futuro.”
 
Por fim, deixo pra vocês refletirem a frase com a qual terminava a matéria do Fantástico sobre as barragens:


Progresso não é destruir. Progresso é conservar. E o legado que receberão as gerações futuras será o que nós façamos hoje para conservar tudo isso ou o que deixemos de fazer para evitar que o destruam. E o rio Parnaíba, não se esqueçam, é o nosso maior e melhor PATRIMÔNIO.

                                                                                    
                                                                            alex.lafuente54@hotmail.es

2 comentários:

Egon Schuster disse...

encanto~me por quem se preocupa com o futuro tendo como base o passado. A tradição tem como pano de fundo a vida, a tecnologia tem como pano de fundo o lucro e o poder, parabéns Alex e vomos nos mobilizar ...Pe Egon

Bernardo Grillo disse...

Carlos,
bom dia,
fiquei de te responder um questionamento que você levantou sobre o Iphan e Luz para Todos, durante a audiência pública que aconteceu no dia 12-05,
me passa o seu e-mail particular para eu te responder.
Aguardo
Bernardo Grillo.

Governador fala sobre matéria exibida no "Fantastico".

Globo no Maranhão é a TV do Sarney, que faz essas reportagens veiculadas nacionalmente. Chamam isso de "jornalismo" e "...